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massarebarbativa



Sábado, 08.02.14

O meu amigo X

Por estes dias o meu amigo X emigrou para Angola. Deixa em Portugal esposa e dois filhos menores. Só poderá voltar ao país daqui a pelo menos quatro meses. Quando estou com ele, brincamos e digo-lhe que vai para o Sol, praia e comer marisco. A realidade é outra e mais dura. O meu amigo deixará de estar com os filhos. Deixará de acompanhar o crescimento e desenvolvimentos deles. Quais serão as consequências futuras para as crianças e para o seu relacionamento com o pai? Questões a serem colocadas por um bolseiro da FCT, numa qualquer tese de doutoramento em psicologia infantil! Bolsa provavelmente recusada por não contribuir para o desenvolvimento económico do país. O primeiro-ministro e o presidente da república regozijam com a diminuição da taxa de desemprego. Sabemos que dois terços da diminuição se devem em parte ao fenómeno da emigração. Ficam, também, felizes ao fim do dia ou ao fim de semana por poder conviver com os petizes da família. O meu amigo X não terá essa oportunidade nem felicidade. Provavelmente as comunicações com a família, ainda que o meu amigo não me pareça homem de lágrimas fáceis, vão acabar em lágrimas de saudade. A desonestidade por parte do primeiro-ministro e presidente da república em torno da pretensa diminuição do número de desempregados irá continuar. Com este ritmo de crescimento económico serão necessários vários anos para uma diminuição dos números de desempregados, tendo como base uma real e efectiva criação de emprego.

Se o meu amigo X conseguir ter sucesso nesta nova etapa da sua vida, talvez leve a família para junto dele. Todos serão mais felizes, com certeza. Quem sabe, um dia! Primeiro vão-se embora os maridos e depois as mulheres e crianças. Antigamente iam a salto, hoje com passaporte, mas as razões são as mesmas. O ministro da educação ficará também ele feliz: menos alunos, menos turmas, menos professores e crianças sem fome.

Evidentemente temos de pagar as nossas dívidas aos nossos credores, mas para tal, é preciso que as nossas crianças passem fome, que os nossos jovens emigrem, que pais sejam separados dos seus filhos durante meses ou anos? Com um processo de ajustamento menos espartano, os nossos credores deixariam de beber champanhe em flutes ou de comer caviar? E os seus filhos deixariam de estudar nos melhores colégios europeus? Gente sem coração e alma nem escrúpulos!

Para mim o meu amigo X não é um número com o qual eu fique feliz como os nossos governantes. Representa uma ligeira fissura numa artéria, que sangra e que faz com que o país definhe lentamente. No fim deste previsível longo processo de ajustamento, o que ficará? Sangue e lágrimas.

Para mim o meu amigo X tem nome e não um sinal de % a acompanhá-lo. Para mim o meu amigo X não é um contentor que sai do país por via marítima. Para mim o meu amigo X tem nome, é o Adriano!

 

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por Pagliacci às 21:27


1 comentário

De Cris Rodrigues a 09.02.2014 às 11:59

Eu tenho vários amigos X. Felizmente para eles têm levado as mulheres/maridos e os filhos. Para o país? São várias as crianças que partem, das poucas que temos, e partem com raiva e com pouca vontade de voltar... Para os governantes que agora temos é maravilhoso, baixa o desemprego, baixam os custos com a educação e com a saúde. O futuro da país? Que interessa isso, os próximos que lidem com a situação...

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