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massarebarbativa



Quinta-feira, 05.07.18

O Jato do IP3

Jato.jpg

O jato do IP3 não é nenhum jato privado que transporte comodamente celebridades do mundo do desporto ou da música ou outras gentes afortunadas. O jato do IP3 é o meu carro que, diariamente, rola e não voa, entre Coimbra e Tábua. Parece que voa de tanto rolar. Rola há cerca de oito anos. O jato do IP3 não é um veículo comercial de um representante comercial de uma qualquer empresa. O jato do IP3 é o veículo de um … professor! Professor com vinte anos de carreira, mas que ainda se encontra no… 2.º escalão. Sim, o 2.º escalão é aquele a seguir ao 1.º escalão, ou seja aquele para o qual se ingressa quando se entra na carreira docente. Isto das progressões automáticas é fenomenal! Contas redondas, ganho mais 1,26 euros à hora (ilíquidos), 6,37 euros por dia (ilíquidos), i.e., cerca de 79 euros mais do que um professor que ingresse neste momento na carreira docente. Compro o livro «Cebola Crua com Sal e Broa» de Miguel Sousa Tavares em wook.pt. 10% de desconto imediato, portes grátis e atesto o jato do IP3. Mas para o Ministério da Educação eu e o meu jato do IP3 não voaram nem rolaram, simplesmente sofreram um apagão. É como recordar o anúncio ao Citroën Dyane mas modificado para “progressão na carreira mal precisam” e “aumentos nem pensar”. Porque gasolina e oficina é para esquecer! Os cerca de 120 km diários dos últimos anos letivos não existiram. Eu e o meu jato do IP3 não fizemos o IP3 com lençóis de água nas bermas ou junto dos separadores centrais, devido às chuvas torrenciais que obrigavam a circular com precauções extremas, não assistimos a acidentes ou estivemos retidos em filas de trânsito, ou ainda sofremos desvios por estradas secundárias devido aos periódicos trabalhos de limpeza das zonas envolventes, bem como aos ocasionais trabalhos de manutenção, não circulámos numa só faixa por motivo de desabamento de terras e rochas das encostas, nem respirei o ar insuportável ou me comovi com o negrume da terra e das árvores e o sofrimento dos meus alunos aquando dos incêndios. Mas daqui a três ou quatro anos, eu e o meu jato obsoleto do IP3 vamos poder circular num IP3 requalificado com perfil de autoestrada e Wi-Fi e 5G. Uma obra com o investimento de 134 milhões de euros, anunciou o primeiro-ministro. De facto, durante muitos anos o IP3 sofreu um apagão. Um apagão provocado pelo esquecimento dos sucessivos governos, o que implicou elevados custos económicos e sociais para a região centro, bem como insubstituíveis vidas humanas. Mas ao declarar que ao fazer obra no IP3 está a decidir não fazer evolução nas carreiras ou vencimentos está a cometer um erro político grave. Obras e vencimentos são despesas de natureza diferente. Não devia apresentar como argumento uma falácia. Além disso, esta afirmação coloca em causa a convocatória, por parte do Ministério da Educação, para uma reunião negocial, como prova da boa-fé negocial do governo, a 11 de julho. Porque convocar uma reunião negocial como prova de boa-fé quando decidiu assumir publicamente não fazer evolução nas carreiras? As progressões na carreira docente ou em qualquer outra carreira da função pública são uma questão de justiça. Decidiu investir no IP3, fez bem, mas decidiu desinvestir nas pessoas e nos que trabalham, fez mal. Substituir um apagão por outro não é solução. Vrrrrom!

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por Pagliacci às 17:51


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