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massarebarbativa



Sexta-feira, 21.06.13

Resposta ao escritor Miguel Sousa Tavares

 Desde já devo avisá-lo que escrevo este texto com meu mini ipad. Espero que isso não lhe cause incómodo. Se acabar este texto é sinal que o mesmo não foi alvo de nenhum amigo do alheio.

O seu texto é hilariante, digno de um buldogue com humor, sobretudo o último parágrafo, mas já lá vou. Quando o tema são os professores sinto-me como um ossinho nas suas mandíbulas.

Em primeiro lugar o Miguel Sousa Tavares teve a fortuna de a D. Constança nunca faltar ao serviço no seu primeiro ano letivo como aluno. Felizmente para si, a D. Constança era uma mulher rija. Não sofreu de faringite, laringite e demais maleitas. Não foi abençoada pela maternidade, sortuda! A D. Constança, também, nunca terá feito greve, que novidade. Hoje vivemos em democracia, há cinquenta anos atrás vivíamos numa ditadura. Que argumento constrangedor para um filho de um lutador pela democracia.

De seguida mistura parque escolar com pequenos almoços, aquecimento e baixas,  telemóveis, magalhães e ipads, lousa e giz, greves, professores desmotivados e deprimidos e horários zero. Presumo que seja uma questão de falta de tempo. Mais um romance intemporal na calha ou algum livro de culinária com uma deadline próxima, malandro?

Agora um cliché profundo, a ideia que tudo é relativo excepto a morte. Tem razão, mas a sua desonestidade quando compara o sistema de ensino finlandês com o nosso não é relativa. Aconselho-lhe a leitura de um pequeno livro intitulado A Educação na Finlândia, os segredos de um sucesso, de Paul Robert, Edições Afrontamento.

Permita-me fazer-lhe mais um reparo. A classe à qual pertenço não recusou ser avaliada, recusou, isso sim, uma avaliação kafkiana que, enquanto vigorou, criou um enorme mal estar entre os professores. A avaliação tem que ser justa, equilibrada, ter em consideração as especificidades de cada escola e contribuir para a formação profissional e pessoal dos professores. Talvez numa próxima ocasião possa comentar a recusa dos recém licenciados da sua classe em realizar o exame de acesso à ordem dos advogados. Estou curioso em conhecer a sua opinião. Entre os professores, tal como entre os escritores e cozinheiros de trazer por casa, há bons e maus.

Quem realizou a greve não o fez de ânimo leve. Foi uma decisão refletida e ponderada. Não somos todos irresponsáveis. Os defeitos que aponta à classe docente são transversais às diversas classes profissionais. Deixe de aproveitar os diversos espaços de opinião que lhe são facultados para ser leviano, irresponsável, sectário e despudorado para com os professores.

Portugal faliu devido à incúria dos sucessivos responsáveis pela governação de Portugal, abusos e falta de valores de alguns.

Frequentemente os docentes trabalham 40 ou mais horas semanalmente. Se porventura o número de horas aumentar no próximo ano letivo, a minha pasta ficará na escola a pernoitar.

Os portugueses não fazerem filhos é uma questão pertinente. Mas para este governo esta questão parece um não assunto. No futuro não haverá quem lhe pague a pensão. Com certeza está preocupado. Aproveite e fale do assunto, afinal não deve querer ver o seu modo de vida diminuído, já lhe bastará as dores inerentes à velhice.

Também não simpatizo particularmente com o Mário Nogueira. Aliás este constituiria uma razão para não fazer greve. Mas, pense, noventa porcento dos professores fizeram greve, o que é revelador da insatisfação da classe docente. Se isso não lhe basta, indague o número de reuniões de avaliação que se realizaram até ao momento. São os professores que se unem e organizam, que se colectam para minorar os custos da greve. Tudo isso para si não terá significado?

O dever do ministro Nuno Crato é zelar por todos quantos constituem as escolas. A convocatória geral do dia dezassete foi uma forma de garantir serviços mínimos. Serviços esses negados pela comissão arbitral. Nunca pensei em si como um chico esperto.

E agora a sua pièce de résistance, o último parágrafo. Espere, tenho de limpar as lágrimas de tanto rir, de ridículo que é! Um cirurgião que faz greve com o doente anestesiado, um controlador aéreo que faz greve com um avião prestes a aterrar, um bombeiro que faz greve no momento de combater um incêndio. Seria de esperar que o anestesista também fizesse greve. Quanto ao controlador aéreo, seria de esperar que o avião fosse desviado para outro aeroporto. E o bombeiro, enfim, é um soldado da paz.

Espero não ter adulterado ou deturpado as suas palavras. Afinal, não o quero mais amuado do que o normal na próxima segunda-feira!

 

 

 

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por Pagliacci às 14:17

Sábado, 15.06.13

A complicada equação da Educação

A equação que o ministro da educação e ciência pretende resolver por estes dias é de resolução complicada. Para além das variáveis do aumento do número de horas de trabalho e mobilidade dos professores, existem outras igualmente importantes e pertinentes. De facto, o ano letivo que ainda agora terminou não terá sido fácil para uma grande parte dos elementos das diversas comunidades educativas do país. Ao longo deste ano letivo a realidade económica e social do país afetou a vivência das escolas. As situações de carência dos alunos agravaram-se, bem como os casos de indisciplina. O fenómeno da emigração é também ele testemunho desta realidade.

Estes factos e outros, como o aumento do número de alunos por turma são factores que provocaram instabilidade nas escolas. Aqui o matemático, Nuno Crato, poderá, se quiser, usar de um truque estatístico dizendo que a maioria das turmas tem 20 alunos. Eu, professor do ensino básico e secundário, responder-lhe-ei que havia na minha escola, no início do ano letivo, cinco turmas do sétimo ano de escolaridade com as seguintes constituições (20, 30, 30, 20, 20), isto é, a maioria com vinte alunos, mas a realidade é que 50% dos alunos são prejudicados no seu processo de ensino e aprendizagem.

Neste contexto, a política de criação dos mega agrupamentos, uma caixa de Pandora aberta por uma das suas antecessoras, MLR, e ampliada nesta legislatura, aumentou a dificuldade dos responsáveis das escolas na resolução dos problemas. O ministro da educação e ciência não tem consciência da realidade das escolas ou, se tem, devia ser menos subserviente e mole para com o ministro das finanças e ter atitude de defesa das escolas. Exemplo desta falta de atitude é o desprezo pela importância do director de turma, elo fundamental na relação entre os alunos, famílias e escola. Um outro exemplo é a falta de consideração pelos professores com mais tempo de serviço. É um facto que os níveis de desempenho profissional diminuem com a idade. No entanto, o ministro da educação e ciência pretende ignorar esta evidência impondo aos professores veteranos horários de trabalho para além do razoável.

Nuno Crato, antes de ser ministro da educação e ciência, defendia a implosão do  ministério da educação. Fez furor. Mero fogo de vista! Hoje o ministério da educação continua a existir, bem como muitas das suas estruturas anexas desnecessárias.

Atualmente as escolas procuram ser mais autónomas porque sentem que o ministério da educação e ciência é um empecilho ao seu desenvolvimento. As escolas anseiam por uma maior liberdade financeira, organizacional e de utilização dos recursos humanos disponíveis para fazer face aos desafios difíceis de uma escola moderna.

Assim sendo, na próxima segunda feira farei greve por todas estas razões. Não aceito o ónus da responsabilidade por eventuais transtornos causados aos alunos e às suas famílias. Esta greve é sobretudo uma consequência dos múltiplos problemas que a escola e os professores enfrentaram quotidianamente este ano letivo. O responsável é o ministro da educação e ciência e as suas políticas que destroem um serviço público que se quer de qualidade, hoje e amanhã. Não há futuro para Portugal sem EDUCACÃO!

 

 

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por Pagliacci às 18:47


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